sábado, 23 de novembro de 2013

Do rio que tudo arrasta - Bertold Brecht




Do rio que tudo arrasta se 
diz que é violento 
Mas ninguém diz violentas as 
margens que o comprimem


Bertold Brecht




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Clamor - Al Berto




 "enquanto te barbeias 

Vês no espelho o homem 
Cuja solidão atravessou quase cinco décadas e 
Está agora ali a olhar-te - queixando-se da tosse 
Da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez 
Num deslize perto da asa do nariz..."

Al Berto in "Clamor"




O Lobo noturno - Mafalda Sanches


"Na floresta dos meus sonhos o lobo aparecia cauteloso
Sabia que eu fugiria perante o mais trémulo movimento
Passo a passo o lobo vagarosamente foi-se aproximando, sempre zeloso
E eu sonhava perdida num mundo de fantasia, quem seria o ser misterioso
E eu acordava confusa sobre porque sonhava com o lobo de pêlo cerdoso
E eu sorria pois o coração de mármore era aos poucos um mero sentimento..."

Mafalda Sanches in "O Lobo nocturno"

domingo, 28 de agosto de 2011

Faz-me um favor....


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

domingo, 23 de janeiro de 2011

Confundimos os deuses....


Confundimos os deuses
quando pedimos perdão
e de joelhos a sangrar pelo vazio
do erro ou da razão,
quando no pico do êxtase
gememos como crianças
e nos libertamos da ânsia
de devorar o mundo.
Mas teu ventre ainda molhado
já esqueceu,
os rostos do Olimpo
e o simples
que é,
Amar …..



Nimbus



Poema entre quatro paredes



Quantas vezes fugi de quatro paredes?
Quantas vezes as difamei,
e pouco cavalheiro,
as abandonei?
Quantas vezes as pintei de negro
com estrelas desenhadas,
de azul com nuvens no horizonte estampadas?
Quantas vezes nem as vi,
e as trespassei?
Hoje,
são a âncora da minha fragata,
e nelas quero habitar!
Nelas te quero ver nua e te fecundar!
São monstros, fadas
com conquistas e fanfarras
que outrora desafiei!
Mas não!
Não mais,
sem que antes
a gélida cor destas paredes
se me apresente como é,
fria, verde e sem maré,
não mais vida,
para além delas,
sem que antes,
teu robe deslize,
pela tinta crua
de quatro paredes …..



Nimbus




sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Uma matilha....


Uma matilha
procura em ti abrigo
e as palavras são agora
uivos
sinos e gemidos,
Finalmente minhas asas
tomam a forma de uma montanha
e deixem o vale
pelo declive de tuas coxas,
Deixa que o silencio
navegue em ti
que o passado e a saudade
sejam o frio do mistral
que o amanhã
não seja desejo
mas surpresa
deixa dormir em ti
as memórias
o som infernal do vulcão,
Irei
como cheguei
não ouvirás meus passos na calçada
nem o postigo da porta
a gemer pela invasão de minha mão,
Longe
a tua pele
transforma-se em papel
que conquisto
com a tinta da caneta
como meus lábios
a beber todos os recantos de teu corpo,
A escrita
procura-te
mas não te beija,
Quantos falsos profetas
nos vão ainda bater á porta
e nos prometer
noites e dias
de orgasmos prateados…


Nimbus

Não mais chaves...

Não mais chaves
nem portas
para nos separar desta estranha forma de felicidade.
Consegues ouvir os cavalos?
Seus cascos
a gemer no asfalto o chicote?
E tu
com luvas de lã
a acariciar os arreios,
como que se no ventre
carregasses as ostras
e sua geleia,
Depois
como mariposa
enfrentas o rosto da loucura,
e nunca mais serás o mesmo….


Nimbus

sexta-feira, 25 de junho de 2010

As mãos pressentem





As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada


Al Berto

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Poema do Silêncio



Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.


José Régio

Nasci-te



No meu ventre de mulher cresceu teu feto
e foi a minha boca que te deu palavras
e silêncios para tu gritares
Dos meus braços multipliquei teus braços
e dei distâncias para tu voares
Dei-te tempos-de-nada
medidos de coragem
E foste. E és.


Manuela Amaral

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sê tu a palavra


1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?


Eugénio de Andrade

terça-feira, 22 de junho de 2010

Chove!



Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


José Gomes Ferreira

Este homem que pensou





Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra



António Ramos Rosa

espera


espera,
deixa a noite ficar mais um pouco,
deixa o escuro cintilar,
mais um dia e outro,
nele somos gigantes,
somos vieiras de negro
e eternos amantes....



Nimbus

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Fever Ray 'Keep The Streets Empty For Me'

se para ser homem



se para ser homem
se dissolve o plástico no plasma
se funde o ferro na prata

então

quero ser pássaro
ou mesmo uma árvore,
um verme fedendo a terra
uma rocha
cinzenta de tristeza....


Nimbus

as lágrimas



..as lágrimas
lavam-nos a alma,
e entregam-nos livres
nas mãos do futuro....


Nimbus

Arte de Amar





Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Manuel Bandeira

domingo, 20 de junho de 2010

Gota de Água



Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.


António Gedeão