Tragicocomedia
Pintaram sorrisos lancinantes
com cores cruas desesperantes
para distrair os expectantes.
Olhem bem, vejam só!...
o mortal que mete dó,
a saltar como um animal ferido
do escárnio acometido
a cair com a cara no pó.
Batam palmas, nobres gentes
feras de sonhos traídos,
batam palmas,
mostrem os dentes, como hienas de flancos contraídos
que fogem do espectáculo decorrido
e do medo de se sentirem só,
como o palhaço caído,
que chora, e ri..., e mete dó.
sábado, 17 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Quero voar

Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.
Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.
E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...
(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)
José Gomes Ferreira
À luz do Sol

À luz do Sol
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros tem medo mas tu não.
Porque os outros são os tumulos caiados
onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
Se tudo o que há .........
Se tudo o que há é mentira....
Se tudo que há é mentira
É mentira tudo o que há
De nada nada se tira
De nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.
Que o grande jeito da vida
É por a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.
Fernando Pessoa
" Não conheço nacionalidades nem fronteiras, meu compromisso é com a vida "
Antony Quinn
Se tudo que há é mentira
É mentira tudo o que há
De nada nada se tira
De nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.
Que o grande jeito da vida
É por a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.
Fernando Pessoa
" Não conheço nacionalidades nem fronteiras, meu compromisso é com a vida "
Antony Quinn
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Deixei a luz a um lado

Deixei a luz a um lado e numa beira
da cama em desalinho me sentei,
sombrio, mudo, os olhos imóveis
cravados na parade.
Que tempo estive assim? Não sei; ao deixar-me
a horrível embriaguez da dor
já expirava a luz, e na varanda
ria o sol.
Não sei tão-pouco em tão terríveis horas
em que pensava ou que passou por mim;
recordo só que chorei e blasfemei
e que naquela noite envelheci.
Gustavo Adolfo Bécquer
Quando estás vestidas...
Esperança

Tantas formas revestes, e nehuma
Me satifaz!
Vens ás vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o Amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco.
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho erético e sagrado.
Laços de Poesia: Esperança - Miguel Torga
Súplica...

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Esta manhã encontrei o teu nome..

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
Maria do Rosário Pedreira
terça-feira, 13 de abril de 2010
Eu não voltarei...

Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.
Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.
Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.
E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.
Juan Ramón Jiménez
Sê paciente; espera
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
Garcia Lorca
COMIGO
(Diálogo com a minha alma)
Pobre alma desiludida,
teu mal é não esquecer
que tudo falha na vida...
Mas ouve, alma: p'ra viver
e ser feliz é preciso
fitar a mentira e crer,
como alguém que sem juízo
olha p'ra terra e a não vê
convertida em paraíso...
Um coração que não crê
na mentira cegamente,
coração feliz não é.
Se se desfaz de repente,
como fumo uma ilusão
que nos encanta... e nos mente;
E, se estendêssemos em vão
o braço com ansiedade,
para, a acolhermos na mão:
é que vemos na verdade,
que, destruindo a mentira,
se mata a felicidade,
é que somente existiria
no desejo - essa ventura,
...e a verdade a destruíra.
Quem a verdade procura.
busca a sua perdição,
busca a sua desventura.
Só se vive na ilusão:
a verdade é venenosa
envenena o coração.
A alma humana, desejosa
de verdade, sem prever
quanto a verdade é danosa,
teve febre de viver:
julgou a verdade boa
como o ar para viver,
- E a verdade envenenou-a...
Manuel Laranjeira
Fabula Antiga
No principio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.
Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada,
Num impeto de furia os seus olhos vazou;
Foi a Demencia logo ás feras condenada,
Mas Jupiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demencia ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,
Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisiveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada
Vai a Demencia adiante a conduzir-lhe os passos.
António Feijó
No principio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.
Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada,
Num impeto de furia os seus olhos vazou;
Foi a Demencia logo ás feras condenada,
Mas Jupiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demencia ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,
Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisiveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada
Vai a Demencia adiante a conduzir-lhe os passos.
António Feijó
As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
Do teu cheiro

O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.
O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.
O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...
Ademir Antônio Bacca
O uivo...
Tentativas para um Regresso à Terra

O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis
hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos
Al Berto
terça-feira, 6 de abril de 2010
Adeus....

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
As crianças...

Elas crecem em segredo, as crianças.
Escondem-se no mais oculto da casa para serem gato bravio, bétula branca.
Chega ao dia em que estas descuidado a olhar o rebanho que regressa
com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se em bicos de pés,
diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno....
A tremer vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a disparar
sobre as gralhas, inumeráveis, áquela hora....
Eugénio de Andrade
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