quarta-feira, 14 de abril de 2010

Esta manhã encontrei o teu nome..




Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 13 de abril de 2010

Eu não voltarei...





Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

Juan Ramón Jiménez

Sê paciente; espera




Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Se as minhas mãos pudessem desfolhar





Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Garcia Lorca

COMIGO


(Diálogo com a minha alma)

Pobre alma desiludida,
teu mal é não esquecer
que tudo falha na vida...

Mas ouve, alma: p'ra viver
e ser feliz é preciso
fitar a mentira e crer,

como alguém que sem juízo
olha p'ra terra e a não vê
convertida em paraíso...

Um coração que não crê
na mentira cegamente,
coração feliz não é.

Se se desfaz de repente,
como fumo uma ilusão
que nos encanta... e nos mente;

E, se estendêssemos em vão
o braço com ansiedade,
para, a acolhermos na mão:

é que vemos na verdade,
que, destruindo a mentira,
se mata a felicidade,

é que somente existiria
no desejo - essa ventura,
...e a verdade a destruíra.

Quem a verdade procura.
busca a sua perdição,
busca a sua desventura.

Só se vive na ilusão:
a verdade é venenosa
envenena o coração.

A alma humana, desejosa
de verdade, sem prever
quanto a verdade é danosa,

teve febre de viver:
julgou a verdade boa
como o ar para viver,

- E a verdade envenenou-a...

Manuel Laranjeira
Fabula Antiga

No principio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada,
Num impeto de furia os seus olhos vazou;
Foi a Demencia logo ás feras condenada,

Mas Jupiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demencia ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisiveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada
Vai a Demencia adiante a conduzir-lhe os passos.


António Feijó

As sem razões do amor




Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

Do teu cheiro




O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...


Ademir Antônio Bacca

O uivo...


...latido incessante em minha mente,
prolongado e crescente,
selvagem secreção em minha boca,
timbre triste chamando por ti.......
Nimbus

Tentativas para um Regresso à Terra





O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras

falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis

hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície

caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos


Al Berto

terça-feira, 6 de abril de 2010

Adeus....




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

As crianças...


Elas crecem em segredo, as crianças.
Escondem-se no mais oculto da casa para serem gato bravio, bétula branca.
Chega ao dia em que estas descuidado a olhar o rebanho que regressa
com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se em bicos de pés,
diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno....
A tremer vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a disparar
sobre as gralhas, inumeráveis, áquela hora....
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 29 de março de 2010


vêmo-nos
não

olhamos para uma imagem que criamos
sonhamo-nos
adiamo-nos

a separar-nos
neblina
um buraco negro

hoje
ontem
recuamos no tempo
para dentro de nós mesmos
perdemo-nos

na bruma
ficou
aquilo que não podemos esquecer
como uma campa rasa
abandonada onde guardamos
a nós mesmos.
já não sustentamos o corpo
já não lembramos a alma
o luto vem como xaile
para esconder o coração,
a alma que doi,
o passado.
entrego nos braços da morte
o meu coração como um filho.
guarda-o bem
por mim.
guarda-me a mim.

domingo, 28 de março de 2010

Amor...


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não comtempla,
sempre o amor procura,
tacteia entre o escuro,
essa perna é tua? esse braço?
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
àbre-se a alma à lingua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca,
também a terra morre....
Eugénio de Andrade

sábado, 27 de março de 2010




.... não esperes por mim,
pois eu embarquei
num longo espectro solar....
Nimbus

quarta-feira, 24 de março de 2010

MARTE

Marte - visto pela sonda Mars




Gigões e Anantes

Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes porque
uns são um bocado mais,outros são um bocado menos.

Era uma um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. - Em quê? - O gigão era tão grande
que não se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão,
e esse então nem se sabia se cabia ou não.

Só havia uma maneira de os distinguir:
Era chegar ao pé deles e perguntar.
-Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
-E nunca se sabia se estavam a mentir!

Então a Ana como não podia
resolver o problema arranjou uma teoria:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbipante era o gigão,
e o anante o que fingia que não.

A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer aquilo que a Ana queria.


Manuel António Pina

quarta-feira, 17 de março de 2010

TaLvEz (by KI)




















TaLvEz

talvez nas ilusões deste hemisfério
a lua seja toda em camenbert,
eu seja um mineral quando quiser
e o meu ego o centro deste império...
talvez seja exequível não sonhar
com esta humana essência em desatino
e talvez, no futuro, o meu destino
seja aquele que uma fada me apontar...

talvez seja "talvez" todos os dias
e nem por um momento haja certezas,
razões para caminhar ou convicções...

talvez das ilusórias ironias
surja um castelo cheio de princesas
guardadas por maléficos dragões...


by poeta