segunda-feira, 12 de abril de 2010

Do teu cheiro




O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...


Ademir Antônio Bacca

O uivo...


...latido incessante em minha mente,
prolongado e crescente,
selvagem secreção em minha boca,
timbre triste chamando por ti.......
Nimbus

Tentativas para um Regresso à Terra





O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras

falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis

hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície

caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos


Al Berto

terça-feira, 6 de abril de 2010

Adeus....




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

As crianças...


Elas crecem em segredo, as crianças.
Escondem-se no mais oculto da casa para serem gato bravio, bétula branca.
Chega ao dia em que estas descuidado a olhar o rebanho que regressa
com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se em bicos de pés,
diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno....
A tremer vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a disparar
sobre as gralhas, inumeráveis, áquela hora....
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 29 de março de 2010


vêmo-nos
não

olhamos para uma imagem que criamos
sonhamo-nos
adiamo-nos

a separar-nos
neblina
um buraco negro

hoje
ontem
recuamos no tempo
para dentro de nós mesmos
perdemo-nos

na bruma
ficou
aquilo que não podemos esquecer
como uma campa rasa
abandonada onde guardamos
a nós mesmos.
já não sustentamos o corpo
já não lembramos a alma
o luto vem como xaile
para esconder o coração,
a alma que doi,
o passado.
entrego nos braços da morte
o meu coração como um filho.
guarda-o bem
por mim.
guarda-me a mim.

domingo, 28 de março de 2010

Amor...


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não comtempla,
sempre o amor procura,
tacteia entre o escuro,
essa perna é tua? esse braço?
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
àbre-se a alma à lingua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca,
também a terra morre....
Eugénio de Andrade

sábado, 27 de março de 2010




.... não esperes por mim,
pois eu embarquei
num longo espectro solar....
Nimbus

quarta-feira, 24 de março de 2010

MARTE

Marte - visto pela sonda Mars




Gigões e Anantes

Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes porque
uns são um bocado mais,outros são um bocado menos.

Era uma um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. - Em quê? - O gigão era tão grande
que não se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão,
e esse então nem se sabia se cabia ou não.

Só havia uma maneira de os distinguir:
Era chegar ao pé deles e perguntar.
-Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
-E nunca se sabia se estavam a mentir!

Então a Ana como não podia
resolver o problema arranjou uma teoria:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbipante era o gigão,
e o anante o que fingia que não.

A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer aquilo que a Ana queria.


Manuel António Pina

quarta-feira, 17 de março de 2010

TaLvEz (by KI)




















TaLvEz

talvez nas ilusões deste hemisfério
a lua seja toda em camenbert,
eu seja um mineral quando quiser
e o meu ego o centro deste império...
talvez seja exequível não sonhar
com esta humana essência em desatino
e talvez, no futuro, o meu destino
seja aquele que uma fada me apontar...

talvez seja "talvez" todos os dias
e nem por um momento haja certezas,
razões para caminhar ou convicções...

talvez das ilusórias ironias
surja um castelo cheio de princesas
guardadas por maléficos dragões...


by poeta

domingo, 14 de março de 2010

Adeus, não afastes os teus olhos dos meus!

Quando dormes
e te esqueces
o que ves
tu quem és
quando eu voltar
o que vais dizer?
vou sentar no meu lugar

Adeus
não afastes os teus olhos dos meus
isolar para sempre este tempo
é tudo o que tenho para dar

Quando acordas
por quem chamas tu?
Vou esperar
eu vou ficar
nos teus braços
eu conseguir fixar
o teu ar
a tua supresa

Adeus
não afastes os teus olhos dos meus
eu vou agarrar este tempo
e nunca mais largar

Adeus
não afastes os teus braços dos meus
vou ficar para sempre neste tempo
eu vou conseguir para-lo
vou conseguir para-lo

Vou conseguir

Adeus
não afastes os teus olhos dos meus
vou ficar para sempre neste tempo
eu vou conseguir para-lo
eu vou conseguir guarda-lo
eu vou conseguir ficar

Procurei-te toda a noite...


Procurei-te toda a noite,
mas não resisti
a vinho e bordéis,
vodka, coxas e seios,
e talvez embriagado
alucionei-te num ventre
de utopia
Mas simplesmente não eras tu!
Segui os boatos das esquinas
a aragem de tua pele,
Mas nunca,
Nunca,
te encontrei.....
Ou apenas,
Apenas te criei
Para não morrer só.....
Nimbus

sexta-feira, 12 de março de 2010


.... e entre os repteis de ferro
que sussurram gritos de aflição,
como que sendo violados
pela ãnsia de suas presas,
fiz-me hóspede de ti,
e
murmurei,
Amo-te,
como se tuas pupilas
me denunciassem
dos crimes em que fui cúmplice.....
Eu também,
preferia que me abandonasses de vez
e que teus oradores
incessantes e hunos
me vendem-sem como escravo
a uma atalaia sem castelo.......
Nimbus

domingo, 7 de março de 2010



Os dias são inóspitos
campos de guerra
de onde levamos
o intenso cheiro a pólvora
nas asas dos sonhos......
E o leve aroma da brisa
de teu útero
como ferida
em pleno combate.....


Nimbus

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O abraço da solidão

A desistência no olhar,
e a vida que se esfuma em segundos...
segundos que me matam a alma,
a vida...
naquelas brumas em que me perdía
e encantava no teu olhar,
no agora...
nesta loucura que me envolve e
em que se enche o meu redor,
simplesmente existo,
num existir de um infinito que me dói...
hipnotizo-me na minha dor,
ela que nesta explosão de sentidos que correm a minha volta,
me abraça na minha solidão.


By Alexander the Poet

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010




















Quero ver-te feliz...
Ficar olhando-te a noite toda...
Sentir-te...
É maravilhoso...
São tantos os bons momentos...
Estarei sempre a teu lado
Brincando contigo
Dando-te força...
O teu beijo...
A nada se compara
Brigas...
Acontecem...
mas...
Sempre ficamos bem.
Pensar em ti...
em todos os momentos bons.
Acontece
quando estou longe de ti.
Farei de tudo...
para te ver feliz.
Lembra-te...
que eu estou aqui
lado a lado contigo.

Obrigada
por me deixares fazer-te feliz...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

De boca aberta






Em nossas brigas não voam televisões,
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.

Urhacy Faustino